14 de março de 2014

ser

se pudesse, viraria mato, ela e eu
daí em diante, tornar-se paisagem
sem nunca influir, apena a fluir
nunca reticências, só parte da existência
seriamos mato, quanto estivéssemos parados
ao respirar, uma brisa de vento gelado
para sempre, já que mato não sabe de tempo
por um só momento, felicidade é curta como vento

7 de março de 2014

cursivas, versivas e subversivas
em prosa, em verso ou no anverso
as letras são sempre como feridas
rasgadas, amargas e vivas

6 de março de 2014

sem lei e sem documento

Costuma ser hilário ver seu bradar anti burguesia. Logo você com nome, sobrenome, títulos, posses, poses e precoce aposentadoria. Chamaria até de heresia, já que sempre viveu de joelhos rezando a cartilha, a espera de vida nas migalhas de heranças das oligarquias. Só não da pra dizer que é hipocrisia, pois ninguém é capaz de fingir o que jamais será percebido, graças a viscosidade nos olhos causada por tamanha letargia. A mim resta deixar de lado o "conto do vigário". Liberdade! Imploro pela minha carta de alforria. Jamais serei escravo das desculpas moldadas em tão bela filosofia da demagogia. 

28 de fevereiro de 2014

(re)missão

Da outra vida
Só me lembro:
No dia em que morri
Ouvi você sorrir

Na nova hora,
Enquanto espero,
Gargalho.
Você chora...

27 de fevereiro de 2014

Não alimentarás falsos patetas

A loucura é livre, logo ela não insiste, apenas existe. Quando cerceia-se esse lapso da existência comum, infringindo divagações reguladoras em constância opressora, mesmo que tais observações tenham ares de evolução abrilhantada pela inconsciência de um espírito livre, finda o improviso humano chamado de loucura. O que resta? O egoísmo autoritário, a manipulação pela ignorância. Portanto, aos tolos que se dizem iluminados pela imagética imprevisível da loucura deixo como palavras "derrubem as próprias máscaras". Tornem-se reais, assumam sua consciência e não justifiquem seus atos ob a ótica extraordinária (em tons de divindade) da loucura. Pois, se podem pensar e elaborar discursos obtusos, não são contemplados com o dom da loucura, estão apenas a serviço da auto-idolatria obscura.

Ato dos opostos



Então, ao sentir a rugosidade de mais um soco no estômago, a dor sobe em ondas de calafrios. Quem não a conhece revida, instintivamente, hora com ódio, minutos depois com medo. Porém, não é a primeira vez que recebo tal visita. Deixo, quase inconsciente, que a náusea  inunde o ventre e outros canais latentes. Que percorra capilares e cerre tenuamente incisivos e molares para chegar a ponta do último fio que cobre o invólucro da razão. Como luz, na mesma velocidade que se expandiu, volta em implosão,  até as pontas dos dedos, apertando-os tão forte quanto seja impossível. Em silêncio – percebido apenas por quem sente – o universo aguarda o retorno em igual intensidade. No entanto, a ternura vence em sonoro oco a força do soco. Por fim, toda dor é submissa à ponta do lápis. Grafada e traduzida em uma só palavra. Sonoramente semelhante ao que nunca pude dizer, escrevo, em grandes letras triunfais (ou descomunais): PAX! Ou apenas paz...

26 de fevereiro de 2014

apagar meus os versos
afinal, são tão anvers

19 de fevereiro de 2014

tamanha erudição
sucumbiu diante de simples interrogação:
mais culto seria o ato da criação
ou o feixe de inspiração?

resposta e convicção:
certamente o de maior exposição
importam somente os louros ao chão
não os atos de alma e coração

18 de fevereiro de 2014

De sol a sol
Do sol ao sal
Nem sal, nem sol
Só 

12 de fevereiro de 2014

fasta retrato, maquinista

ao som dos bois
ferro, no frio, dias a fio
nem ele era pai
nem eu era filho

éramos dois
juntos por fadário
sozinho, sem depois
não tenho contrário

só sigo adiante
no eco dos bois
pois ainda ouço "fio"
lembrança, meu campanário
e quem disse
que luz não se vive
certamente é triste
não conhece seu sorriso
essa luz que insiste

30 de janeiro de 2014

rasgo-me
depois remendo
cada corte fechado
é ensino do tempo

21 de janeiro de 2014

preto

de canto livre
agora em alma vive
ide em paz
que nosso sol,
sem dó, se arranje 

15 de janeiro de 2014

indo ao nacional

Ouviram? Lá do Ipiranga, as "margens" cálidas
Um povo heróico, preto, pardo, pobre... mas relutante
Sem sol, sem liberdade, só (pelas frestas) raios frios
Tomou o céu da (outrora) pátria em um só instante.

9 de dezembro de 2013

não precisa nome
nem ao menos sobrenome
só precisa ser homem
mãos à obra
eles pensam
enquanto dormes

4 de dezembro de 2013

Decida-se, empenho versus desdenho?
claramente prefiro desenho
no certeza do senho
que tenho

3 de dezembro de 2013

Gozo

O Brasil é pior que punheta
Gozar nas coxas ou nas tetas
Ô país brochante
Onde inseminação artificial
É, do sexo, a posição mais excitante
Somos ejaculação precoce
Da preliminar constante

25 de novembro de 2013

sem pedir licença ao entrar
nem tampouco desculpas ao sair
todo amor é sem educação
dispensa etiquetas ao se despir
sobre a  a pele só deixa paixão
se não mais dizer sorrir?
bate a porta, sem cerimônias, sobra solidão
quando der na telha, pode até voltar
mas é sempre parar desajustar
afinal, amor não é para coexistir
nem mesmo para completar
amor, de verdade, é para tomar

20 de novembro de 2013

a consciência é negra
de alma branda
o copro que treme
a voz arranha
é difícil entender que esperança,
ainda, é só branca
pobre vereador
vela a dor
de aguardar com fervor
seu cheque ao portador

assalto a mão armada
seguido de um bela mamada
as vezes boas chupadas
sempre na mamata

pobre vereador
responde ao clamor:
sou do povo o ator
logo, finjo resplendor

a patota desavisada
esqueceu a máxima rechaçada:
a democracia aclamada
da demagogia politizada

quadrilhas e quadrinhas

petralhas, tucanalhas
ou coisa que o valha
pra seu governo
no país chamado Brasil
em quinhentos ou dois mil 
com céu sempre anil
nunca prevalece quem trabalha
alias, isso é coisa de gentalha

13 de novembro de 2013

Eu não mereço
Nem um terço
Do que vejo
Em seu começo
Que dirá o que antevejo
de todo seu apreço
A Jana é linda.
Se não bastasse,
Me deu você, menina.
Se é possível,
Ainda mais linda.
teu encanto,
onde descanso.
teu sossego,
meu remanso.
Amora 
Não é fruta
É menina pura
Já nasceu Madura
Pronta pro agora

Pra levar embora
Coração mundo afora
Saudade demora
Diz que está na hora
De viver Amora 
Esperando voltar pra casa 
Esperando a hora que passa 
esperando sua graça

1 de novembro de 2013

01/11

Hoje
Todos os santos

Ontem
José dos Santos

Amanhã
Será ainda

Sempre
O velho Vô Quincas

Nunca
Esquecer de onde vim

Todo dia
Espera ele por mim
De cordel em cordel
Não vou pro céu

Desculpa de alienado é o capeta

Tenho dó do Demonio, anjo caído.
Difamado, coitado e traído.
A ele atribuem tudo, verdadeiro fodido.
Dizem ser dele, até os erros  não assumidos.
Sim, é mais fácil pisar no rabo e apontar o bandido.
Queria ver se fosse você o imaginário banido.
Coitado do Demonio, inanimado e maldito.
Assume a maldade do homem, dito bendito.
Cramulhão é desculpa desse ser iludido.
Acredita que passando a culpa será absolvido
Assim, ele se esgueira, e você dorme tranquilo.

30 de outubro de 2013


Então, depois de caminhar por um longo tempo, ele se sentou contra o sol e olhou a própria sombra refletida no sopé da montanha. Longa e tênue, escura e vagarosa, sofrida como dia a dia, mas serena como só as consequências podem ser. Contemplou mais algumas vezes, ergueu-se – ela também se erguia, a espreita –, encarou-a e, só então, foi capaz de dizer: "Mesmo longe, qualquer lugar parece perto de mais de você".

28 de outubro de 2013

dever à divida

Devemos
Pagamos
Contraímos
Dividimos
Eternamente

Devemos
Negamos
Subtraímos
Desvendamos 
Diariamente

25 de outubro de 2013

rogado

no céu
serei sentenciado
culpado

no inferno
não serei anistiado
desgraçado

enganador
mentiu pra deus
traiu o diabo

31 de julho de 2013

a loucura:
pura,
crua.

a sanidade:
estandarte,
catre.

o equilíbrio:
colírio,
lírio. 

15 de julho de 2013

febre do ouro
ouro de tolo
febre do povo

e o primeiro?
galinha ou ovo
gigante ou povo

febre do ovo
gigante tolo
febre do povo

10 de julho de 2013

de joelhos


Ontem orar era prostrar
Hoje rezar é como respirar
Prostrar é apenas amar
E fé é como sorte e azar

Ontem o terço era como calar
Hoje a prece é continuar
Calar é apenas escutar
E acreditar é como aceitar

3 de julho de 2013

sobre o tempo


era velho
de alma jovem
era jovem
de alma? velho

um jovem
quando velho
outro velho
quando jovem

foi-se jovem
o que era sempre velho
continua sempre foi jovem
mesmo que aprece velho

19 de junho de 2013

juntos

está vendo essa mão?

segure firme então
ela é seu sim e seu não
é o que separa nós dois da multidão

segure firme, com todo o coração
ela é minha verdade e sua razão
é o que nos une em qualquer dimensão

veja, venha, me de sua mão

16 de maio de 2013


engordo,
de engodo tolo.
nunca vivo,
quase morto.

animal tosco.
abarrotado,
de pão, de circo,
carne e osso

ouço:
roe-se todo.
moe-se todo.
todo!

remédio do tédio médio

se morrer 
que não seja de tédio
se sobreviver
que não esteja médio
se viver
que não haja remédio
Queria dizer que queria
Já não quero mais
Vontade voraz

Se queira não era meu 
Se meu não era
Nunca me pertenceu

Queria o que não queria
Já não importa mais
Não satisfaz

13 de maio de 2013

e se você tiver coragem de cruzar de novo meu caminho? ora, vou te encher de flores e um bom copo de vinho, sentar ao seu lado, trocar ideias e carinhos. afinal, rancor é dor e amor é o que carrego comigo. se você cruzar de novo meu caminho posso te chamar de pai, de mãe, de amigo ou de filho. na verdade não importa. você só vai entender, quando cruzar o meu caminho, que jamais esteve sozinho.

2 de maio de 2013

Tom

Nunca músico
Sempre música
Só para tocar
Seus ouvidos

17 de abril de 2013

Qualificações


Não, não sou redator
Sou amador
Também não sou poeta
Mas a palavra me afeta

15 de abril de 2013

Moda de Lá

Lá é Minas
E lá é tudo diferente
Lá é mais fácil burro voar
E lá cobra tem dente

Lá é Gerais
E lá as coisas não são iguais
Lá é mais fácil se assombrar
E lá lobisomem e saci é que são normais

Lá é Minas, Gerais

21 de março de 2013

de primeira


Não poeta
Poesia
A criatura
Jamais cria

14 de março de 2013

Meu caro,


Ao estender as mãos, quebraram-se os dedos
Pos-se de pé e foram-se os joelhos
Rastejou, tornou-se ameno

13 de março de 2013

lento, pensamento

sim, hoje não dormi
com isso, vivi e senti
horas enfim, dedicadas a ti
nosso instinto coletivo jaz sedentário. mesmo quando nos levantamos e bradamos permanecemos sentados, nos rabos, próprios ou emprestados.

7 de março de 2013

dia a dia


Achei que viveria
De poesia um dia
Ledo engano
Todas as noites
Faço dela manto

4 de março de 2013

lamento negro


continuo a sacrificar os dias para resuscitar noite após noite / o raio de sol, agonia em meu açoite / sorri como alforria, sem destino e sem pernoite

22 de fevereiro de 2013

oração


Entre a cruz e a espada
Sob a vela e a bala
Curvei-me
Ante a caneta e a palavra

20 de fevereiro de 2013

cores d'alma

branco de alma negra
quando nêgo, ela é branda
se vermelho, não a tenho
amarelo a desdenho
incolor, minh'alma, minha dor

28 de janeiro de 2013

looping


Em prosa e verso
Dito o fim
Do que já foi início
E também anverso
Desse reverso

18 de dezembro de 2012

Carta ao Neanderthal


Velho amigo
Aqui tudo continua igual
Tudo bem comigo
Esperando outro natal
Outra vez iludido
Com essa de ser normal
Ano que vem, fudido
Tentando algo legal
Eu sei, fui o escolhido
Para vida real
Certamente, teria preferido
Continuar natural

12 de dezembro de 2012

Ah! Eu vou...


Um dia vou embora
Para nunca mais
Na verdade vou
Voltar atrás

oh! Minas Gerais

Diálogo


- Okey, passa pra cá esse gole de tristeza...
- Não, não é tristeza... é amargor
- Jogue fora.
- Hã?
- Jogue fora, o copo todo.
- Mas é que sempre tenho essa sede que não passa...
- Pois sim, é melhor embebeda-la de amor.

Depois, entenderam enfim: Quando lhe faltar razão, beba logo, em goles rápidos o que chamam de paixão. Tomei sempre, pois o efeito é rápido, alucinante e revigorante. Mas, saiba que é preciso esperar, as vezes tanto quanto a dor já perdurou. Porque, quanto lhe falta a razão, mesmo quando estiver no fogo da paixão, só o silêncio lhe trará o perdão. É com ele que se encontra um como cheio de amor.

3 de dezembro de 2012

Mantra (ON)


O que pensava eu
Não lhe era mais importante
Nem mesmo o que eu sentia
Não sejamos redundantes
Nada era como antes

O que então agora?
Numa hora qualquer
Num milésimo de segundo
Não diga-me não
Note-me por apenas um minuto

14 de novembro de 2012


No fundo dos pacatos olhos a fúria da sua (in)própria razão. Da pontas dos dedos, tal qual uma extensão, o clique surdo. Agora clarão. Após, escuridão.

12 de novembro de 2012

hereditariedade


Um dia
Seremos filhos
Herdeiros
Dos filhos
Sem pai

Do avô,
O primeiro,
Uma só palavra
Aqui jaz
"Jamais"

Um dia
Seremos pais
Hereditários
Dos filhos
Sem nunca mais
Na loucura, se você olhar bem de perto, irá encontrar a verdadeira lucidez. Já nessa tal verdade lúcida, só a doce ilusão da embriagues. Só mais trago de loucura eu te peço, só mais um trago.

27 de setembro de 2012

Trinta anos não lhe bastava, queria a eternidade. Suicidou-se, em mais um trago de maldade.

8 de agosto de 2012

Banquete


Com as pontas sujas dos dedos
Deliciei-me
Com sabores da infância

Com as mãos esfoladas e tingidas
Fartei-me
Com aromas da maturidade

Com alma insípida, inodora e incolor
Saciarei-me
Com texturas  da velhice

Que assim seja

6 de julho de 2012

marginália

a margem
à margem
há margem

ser
estar
existir

7 de maio de 2012

RIP


Decomposição
Apodrecimento
Desagregação
Dissolução
Putrefação

Ócio

4 de maio de 2012

Toada

Da infância 
Para o mundo
Que não reconheço
Se vão as violas
Depois os terços
Sem passado
Não tem futuro
Nessa tristeza
De novo Jeca
Não mais giramundo
Chora viola
Implora

27 de abril de 2012

Mãos Gerais

Eu vim de lá
E lá veio pra cá
Num verso tolo
E um desenho bobo
Se faz Gerais
Por hora também
Pelas minhas mãos

É muito de mim
Pra não dizer quase tudo
De barro
Do som
Da madeira
Do falar absurdo
Se fez em mim
Pelas mãos, Gerais

25 de abril de 2012

Abanheém


Nasci branco
De alma negra
E fala tupi
Ai de mim dizer que não

Sou Mulato
Cafuso e Mameluco
Sou Cabloco Flecheiro
Consagrado à Mãe de Deus

Nasci beato
De mãos pagãs
E fala laica
Ai de mim não crer

Sou de umbanda
Espírita e cristão
Sou fluente da Luz Universal
Devoto de Cosme e Damião

24 de abril de 2012

Só ria


Hoje sorria
Sem teus dentes
Demente
Com toda a tua razão
Também ausente
Sorria sem teus dentes
Tua vontade eloquente
Como toda gente
Desgraça pouca
De ser vivente

19 de abril de 2012

Éramos nós

Éramos muitos
Cada qual com suas cores
Éramos milhares
Cada um com seu deus
Éramos fortes
Cada amundaba com sua palavra
Éramos diferentes
E mesmo assim iguais
Os herdeiros da floresta

Éramos, não somos mais
Os filhos do Brasil
Agora um indigesto civilizado

18 de abril de 2012

Tratado sobre (a minha) loucura

Ah, a loucura. Ácida doçura da certeza de que nada é além do seu próprio ser. Nada se cria, mas tudo pode ser criado. De jovens deuses ao velho diabo. O mal é contra-senso do bem, tal qual o fim a verdade do além. O que real é louco, a realidade será sempre o profano. Então, seguimos a verdade, ajoelhados como gado a espreita da salvação. Absolvidos pelo sacrifício da carne, esquecendo do sangue que deu vida a toda a sanidade.

9 de abril de 2012

Rebobinar

Só queria sentar ali
Sob a velha árvore
Com minha lembrança antiga
Sobre um avô velho
Seu antigo causo
Na toada da velha viola
Ressoar o antigo rock rural

Rei, ror, létisgor!

Andante

Antes
Passos lentos
Sem nunca chegar
Sonhando
Sem lamentos

Agora
Velocidade máxima
Chegar e partir
Sem sonhar
Sofrendo

3 de abril de 2012

Quadrinha

Saudade da Preta
Do fogo de seu candeeiro
Que me rogou feitiço
Para dançar só em seu terreiro

Salve Janaina
Menina Iemanjá
Um só soluço seu
Já me faz amar

Errata

Algumas manhãs reservo pra assumir meus erros. Não são poucas as que se estendem pelas tardes, afinal, são tantos erros antes de um acerto.

3 de Abril

Encanta ainda ser criança
Na tranquilidade colorida
Desse jardim no céu
Bolhas esquentam o ar
São sorvetes de doce mel
Química, física, apenas alegria
Inflam a esperança
Em meu tolo coração de papel
Onde nunca quis estar
Mesmo assim,
Volto a sonhar

13 de março de 2012

Relembranças

Costumo lembrar do que para outros é pouco importante. O cheiro brando do silêncio ou o gosto cítrico do reencontro. Lembro-me também da novidade estourando como bolhas de gás no céu da boca e da miséria prensando a dignidade tal qual um golpe forte na boca do estomago. Mas o que nunca deixo mesmo de lembrar é o aroma pálido da morte, chocando a todos, para provar que ainda estamos vivos. Quem não se lembra de nada disso, provavelmente, nunca entenderá porque o ruído de um bebê que soluça eternidade ao nascer é tão extasiante.

22 de fevereiro de 2012

Cinzas

Olha a quarta-feira
Tão cinza
Como segunda-feira
Que não termina

Veja o sorriso do palhaço
Tão sem graça
Como a última nota da marchinha
Que não rima

Olha, veja, lá se vai o carnaval
Tão cheio de saudade
Como o lágrima do Pierrot
Que não tem Colombina

Olha só
Veja bem
Só cinzas

8 de fevereiro de 2012

Tons

Vermelho
Seu sangue, herdeiro
Rubro
Minha terra, agora sua

Grená
De alma livre
Escarlate
De fé sublime

Pitanga
Somos todos nã
Coral
Irmão cari

7 de fevereiro de 2012

Mormaço

De repente
Estava quente
Gritou dormente
Sai da frente
Atrás vem gente

Tchibum!

Indigente
Na água latente
O suor descrente
Fez-se descente
Valente

Chuá!

De repente
Estava quente
Na água a semente
Que o calor fermente
Verão veemente

Vapor!

30 de janeiro de 2012

Amanheceu

Enraizado e envernizado
Aperto play, engatilho o macaco
São dez cordas, bordões desafinados
Canto a discórdia do homem civilizado
Mixando valentia de herói do passado

Sou caipira, pira, pora
Remix de cangaço, oratória do mormaço
Do rap ao roll com sotaque eu descasco
Da toada vem fechada, corte e facada
Madando lero para o povo sonhador

20 de janeiro de 2012

Sincretismo

Amém
Axé
Meu Deus
Saravá
Viva Nossa Senhora Aparecida
Salve Mãe Iemanjá

Eu não sou santo
Mas sou caboclo
Toco viola
E danço coco
A pela é branca
De alma negra


Velei-me São Jorge Guerreiro
Beria-Mar auê,
Meu Ogum Vermelho
Graças e louvores
A todo momento
Ao Divino encantamento

19 de janeiro de 2012

Anos

Desde a pasta de dente
Todo dia é diferente
Mesmo com alguns gritos
Sempre lembro dos sorrisos
Afinal, são eles
Que fazem meu coração latente

13 de janeiro de 2012

Prefácio do início do fim

Sim eu também escrevo
É sobre o fim do mundo
Sobre a dor do pé no frevo
Do carnaval ao enterro
Rabisco pra não ficar mudo
Conheça então meu absurdo

Embola

Ouço poesia com cheiro de terra molhada de suor do ouro crioulo. E eu respiro o que parece um rio de mim mesmo. Também sou trovador desse imenso desespero. Salve mestre, salve povo brasileiro.

5 de janeiro de 2012

Espirituosidade

Espirituosidade
Malandragem de malungo
Oxalá abre a porteira
Yo quiero ver o mundo

Sinto falta desse cheiro
Perfume de absurdo
Onde reza a lenda
Do profeta vagabundo

Espirituosidade
Chave mestra do oculto
Saci acende a erva
Quero um trago do ciullo

Abundância de sabor
Gosto forte de calor
Realiza a profecia
Do pobre sonhador

6 de dezembro de 2011

fake

fico aqui vendo, como é velho seu pensamento
fruto da hipocrisia do seu lamento
tento, juro que tento, mas não entendo
como é falso todo esse seu ornamento
descanse só esse momento
tal quel um azedo fermento
e mostra tota realidade do seu tormento

16 de novembro de 2011

Apocalipse

Quando heróis nascem mortos
Deus cospe sobre nossos corpos
Não existem vilões, apenas coalizões
Nem demônios, nem anjos... Gabriel
Restam as superstições, Azazel

8 de novembro de 2011

sim

Um dia, algum tempo atrás
Disseram-me não
Nos dias seguintes
Sucessivamente
Mais e mais nãos

Enfim, outro dia desses
Ela disse um só sim
Nunca mais precisei de nada
Para viver assim
Feliz, até meu fim

1 de novembro de 2011

Oração

Dia de todos os santos
Invoco o protetor
Deus, pai e avô
Anjo da guarda e zelador
Da terra o cabloco rezador

Dia do meu único santo
José dos Santos
Quincas, grande peleador
Trava guerras com minha língua
E derrota com amor

Dia do anjo santo
Salve a morte e a redenção
Sigo debaixo da fumaça
De cigarro velho de palha
Forjado de causos, ele que nos valha

Dia do santo anjo do senhor
Sua cultura
Minha carapaça
E a espada
Nossa toada

6 de outubro de 2011

Nunca desisto,
Eu insisto
Afinal, meu pensamento,
Não é como seu
Insistentemente, omisso

outros tempos, outro dia, o mesmo absurdo

O passado é descendente
Desse futuro demente
Um absurdo profano
Da vida ano a ano

As crenças são pedras
Qual rasgos de duras cerdas
O absurdo insano
Da condição de humano

Aos trinta segundos
Dos trinta anos
Há um absurdo rosnando
Do calcanhar ao âmago

O desalento do desprendimento
Dessa vida ao relento
Verdadeiro absurdo
Ainda gritar mesmo mudo

18 de maio de 2011

Noite (ou trevas)

Amargo
Um gole de cansaço
Azedo
Como meu cheiro
Catarse do desespero

Afago
Um bocado de solidão
Amarelo
Como meu dedo
Calamidade do medo

Arrocho
Um naco de miséria
Ácido
Como meu asco
Comicidade do zelo

Apago
Um raio de luz
Agudo
Como meu sono
Cúmplice do erro

18 de fevereiro de 2011

"Um ponto nunca é só ponto, é ponte. Passarela que une na espera do que foi, e do que vai vir. O ponto, mesmo o final, é sempre portal. Entre o que foi dito e o que será escrito. Ponto, quase umbral, onde pensamentos esperam buscando o entendimento. Logo, ponto é apenas um ponto. Ponto de encontro, onde decidimos se continuamos. Por bem, ou por mal."
""Enfim posso viver em câmera lenta. O coração quase sem bater, é sinal do “estar” de você. Prefiro desacelerar. Assim, tenho mais tempo para contemplar. A pulsação quase inerte não é prefácio do fim. Apenas conforto do “estar” em você. Simples consciência da dádiva do “estar” você em mim."

relatividade

Sigo trilhas de suspiros
De olhos bem fechados
O que orienta são sorrisos
No silêncio que grita
Guiam também tons amorosos

Procuro encontrar
Quase sempre perco
Sem desespero, sem pesar
Na luz fraca, cega
Um dia irei achar

Conto todos os segundos
Nunca as horas
Frações de nossos mundos
Nesse milésimo do tempo
Acelero todos os minutos

Percebo a aurora
De peito todo aberto
Enfim, é chegada a hora
Nessa eminência de esgotar-se o tempo
Congelo nosso amor profundo