30 de outubro de 2009

Batismo

Hoje quero bater cabeça
Ver força
Sobressair sobre fraqueza
Tudo regado a nobreza
Do santo oco
Sem ouro como riqueza

Oxalá permita a luz brilhar
Sob escurecido luar
Com armas de Ogum
Roupas de Iemanjá
Um novo nome
Para vida nova coroar

Cavalo a galope
Mente sem pensamento
Orvalho de corpo ao relento
Do nome antigo nem graças
Nem lamentos
Da nova graça
Infinitos elementos

20 de outubro de 2009

Intervalo

Quando não sobra
Mais pra nada a vontade
E cessa a obra
Sem dizer nenhuma verdade
Hora a hora
Segue dura a marginalidade

Pros que vem ao toque de esporas
Parece velha a idade
Não entendem porque choras
Nem porque verte a realidade
A morte sobrepõe vidas
Loucura que ataca a faculdade

Quanto gritar ação
Não haverá mais ato
Nem estenda a mão
Foi-se embora as sete vidas do gato
Mente sem rebelião
Pensamento hiato

10 de outubro de 2009

sem encanto

Une-dune-tê
Lembra disso:
Nunca mais pudeste escolher

Bem-me-quer, mal-me-quer
Agora, bem,
Só verás em série de TV

Abra-cadabra
Mágica sim,
Podes ver a alegria desaparecer dia a dia

Plut, plat, zum
Nem você, nem seus sonhos
Não vão a lugar nenhum

Hora do recreio
Agora sim
Um descanso pra essa vida em desespero

6 de outubro de 2009

O dia do absurdo

Respeitável Público
Senhoras e Senhores
Honorável corja
Bem vindos ao Dia do Absurdo

Absurdamente real
Realmente abominável
Abominávelmente absurdo
Olhei firme para o Dia do Absurdo

Cobras de cem cabeças, ou mais
Palhaços que choram sangue
Sangue puro feito de ki-suco
Bebei do leite dessas bestas do Dia do Absurdo

Cuspo fogo
Escarro pestes
Urino sal de outubro
É só meu todo o Dia do Absurdo

Hoje é real
Meu absurdo abissal
Amanhã é teatro
Será sempre letal, o Dia do Absurdo

Respeitável Público
Tapai os olhos
Há muito já cegos
Antes mesmo do Dia do Absurdo

Senhoras e Senhores
Quebrai os dentes
De tanto ranger
Pois tanto temem esse Dia do Absurdo

Honorável corja
Celebrai
Pois além de mim, só vós
Poderei desfrutar do Dia do Absurdo

5 de outubro de 2009

Véspera

Eu pensei em não mais acordar
Ficar inerte, deitado
Em sono profundo
Para não ter mais que aceitar
Nem discordar
Nem mesmo argumentar
Eu sonhei com minha morte pro mundo
Minha morte pelo bem do mundo
Relutei mas tive que acordar
No espelho, já cicatrizados
Pontos que em minha máquina de falar
Agora já não posso e não quero expressar
Acordado e confuso
Lembrei-me
Amanhã é feriado
É dia do absurdo

31 de agosto de 2009

cada

Cada dia, cada minuto, cada segundo
Cada um pense o que quiser
Cada qual sabe onde sangra o ventre
Cada pessoa sente
Cada indivíduo entende
Cada dia, cada minuto, cada segundo

Cada um com seu cada um
O meu, tem certeza de que é hora de parar

17 de julho de 2009

Com minhas próprias mãos
Depois que soarem os sinos pela quinta vez
Tudo será minha culpa
E só minha
Sem mais longos suspiros
Nunca olhares desconfiados
Amanhã, a essa mesma hora
Serei apenas eu
Não
Eu, Deus e o que ele me deu
Será com minhas próprias mãos
Que farei rir
Que deixarei chorar
Que tentarei sonhar
Com minhas próprias mãos
Aprenderei, de verdade, a amar

8 de julho de 2009

Vivo, morto. Morto, vivo.

Ando meio com dor de dente. Sabe? Aquele tipo dormente, não latente. Incomoda, mas de tão leve acaba fazendo parte da gente. Quase como emprego. Como faculdade e igreja. Essa dor já vem de algum tempo. Não sei se chegou coma vontade de parar com tudo, ou se parei com tudo por causa da dor. Sei que é uma causa e efeito. Nesse tempo, que a gengiva palpitava dormente, não tive nenhum sonho latente. Nenhuma ideia abrupta para mudar o mundo e fazer com que me virasse na minha própria tumba de caos. Por um tempo foi bom. Evitei várias outras dores. Mas hoje decidi que chega. Não pretendo arrancar esse dente, nem com ele minha dor. Simplesmente parei de escovar os dentes. Vou cultivar essa mortificada dormência. Espero que o acúmulo das pequenas latejadas, que parecem formigamento moral, faça-me novamente gritar. Incubado em meus berros estarão o bafo de um uma dor fúnebre, em cheiro e conteúdo um verdadeiro cadáver. Ressurgindo, como em ‘a volta dos mortos vivos’. Sedento não de sangue, mas de alma. A sua alma, aminha própria alma. Por fim, estou de volta. Mesmo que em eterna decomposição.

10 de junho de 2009

Concorrente carência

Engole seco
Pois é meu sossego
Teu desespero
Que desça áspera
Garganta a baixo
A água de teu deserto
Cada grão da areia
Uma palavra
Da minha boca apeia

Engole seco
Pois é colírio para os olhos
Teu receio
Que desça quente
Doe esôfago ao estomago
A ânsia de seu castelo
Cada grito mudo
Uma certeza
Da minha mente ascende

28 de maio de 2009

Bricoleur

Será poesia o design, ou design a poesia
Será criatividade a alucinação, ou alucinação criatividade
Serei eu o criador, ou penas fui criado
Servirá a mima criação, ou como servo serei criado
Medico ou monstro, monstro e médico
Da galinha o ovo, do ovo a galinha
Sobre qualquer divagação, divago
Mesmo não sendo minha, a noção do produto exato

12 de maio de 2009

Re-educação

Ainda estamos em plena escravidão
Nosso ópio, cevada
O churrasco o grande pão
Nossa própria morte é o circo
Diversão popular na televisão
Salário mínimo
Chibatadas intensas em recessão
Da vida nos resta um padrão
Comer, beber, defecar e morrer
De cabeça baixa
Sob a mira do capitalismo patrão
Sem honra, sem nome, sem opinião
Resta-nos calar
Ante a camuflada repressão
Nem pão nem circo
A opressão
Faz-se comunhão

Sobre independência, saudades e mundo

Necessito ser eu
Um ser errante
Vagabundo
Vagando sem pena
Sem mendo de tomar-me vago
Não sinto saudades
Não quero nada do mundo
Mas sou dependente
Do meu próprio absurdo

8 de maio de 2009

6

Seis

Minutos
Horas

Dias

Meses

Anos

Décadas
Séculos

O tempo que for

Tudo nosso amor irá transpor

A alegria e a dor

No fim

Será tão forte

Como num certo beira-mar

Seis

Segundos

Bastaram para saber

Que seu calor

Far-me-ia delirar

Pelo tempo que for

29 de abril de 2009

Onde está Wilson?

Ali, à frente
A ilha onde nada há
Cercada de pequenas penínsulas
Ainda mais vazias
Só, no cento
O naufrago, com azia
Morreu de tanto tentar
Descobriu que dói pensar
Dor insuportável
Em meio a ecos
Da própria afasia
O último instante
A descoberta
A morte não traz descanso
Falecer é teatro
Fantasia
Pura hipocrisia

Má digestão

Sigo devorando o mundo
Mesma já quase sem dentes
Digerindo sapos e serpentes
Defecando sobras
Em seu banquete latente
Vou ingerindo grandes nacos
Dessa carne putrefata
Da qual é feita essa sociedade
Canalha como lamina de navalha
Vomitando líricos versos
Meu sonho versus seus ganhos

27 de abril de 2009

pixealizando o impixealizável

Preciso de um aditivo
Na verdade
Quero mais adjetivos
Fomentar a massa inerte
Gelada e sem vida
Que ocupa a lacuna
Entre olhos e cabelos
Aquilo que já chamei de cérebro
Hoje um HD estéril
Informação é o que não falta
Mas falta combustível
Um verbo como aditivo
Pensar em novos adjetivos
Um HD sem memória
O que já foi cérebro
Hoje é apenas a quebra de um link
Sem conectividade
Nem objetividade
Um sinal ocupado
Para mim mesmo

15 de abril de 2009

Uma vez tracei
Pai, Filho e Espírito
Hoje refaço o traço
Pai, Filho, Espírito e Santos
Laurentino, Quincas, Ilton, Naninho,
Pãozinho e outros tantos)
Hoje você falou sobre meu humor... Digo que está longe de ser felicidade, foi apenas um tolo conforto dos curtos tempos de paz. Cada dia mais sinto-me guerrilheiro, quase só no “aparelho” instalado na minha própria cabeça, saindo a noite para selva onde caço lacunas do futuro e do passado onde posso sincronizar o todo quem sempre amei. Todo que para mim é tudo, onde estão, pai, mãe, avós, avôs, irmãos e a arte, elemento sempre presente, mas que já não me satisfaz.

6 de abril de 2009

Desalento

O desalento é volátil elemento
Horas inflado, deveras inflamado
É pretexto em qualquer contexto
Manha em cada manhã

O desalento é preguiça majestosa
Em segundos expansível, sempre consumível
É placebo em inexistente doença
Birra em meio à intriga

O desalento é do ego cafuné
Instante do antes, pedante do depois
É mentira em vigília
Desculpa na falta de muleta

O desalento é mesmo rancor
Terror em memória, pavor em busca de glória
É reticências na prosa
Interrogação em meus versos

O desalento até é frescor
Reflexão para quem pensa, oração para alma tensa
É pausa às vezes constante
Indicio de ânimo em cérebro inconformado

O desalento, em toda certeza importante
Ciclo quase incitante, volta errante
É necessário em tom revolucionário
Único e relevante

9 de março de 2009

Nem consolo, nem desabafo

Faço da suas as minhas palavras
De seu ódio meu motor
Faço do seu sangue combustível
De suas idéias a revolução
Adiável, mais imprescindível
Faço das suas as minhas lágrimas
Do som de seu choro a minha promessa
Rirão agora
Gozarão sobre essas pequenas sobras
Mas ainda verão
A verdade, a compreensão e a razão
São todas nossas