No fundo
dos pacatos olhos a fúria da sua (in)própria razão. Da pontas dos dedos, tal
qual uma extensão, o clique surdo. Agora clarão. Após, escuridão.
14 de novembro de 2012
12 de novembro de 2012
hereditariedade
Um dia
Seremos filhos
Herdeiros
Dos filhos
Sem pai
Do avô,
O primeiro,
Uma só palavra
Aqui jaz
"Jamais"
Um dia
Seremos pais
Hereditários
Dos filhos
Sem nunca mais
27 de setembro de 2012
8 de agosto de 2012
Banquete
Com as
pontas sujas dos dedos
Deliciei-me
Com sabores
da infância
Com as mãos
esfoladas e tingidas
Fartei-me
Com aromas
da maturidade
Com alma insípida,
inodora e incolor
Saciarei-me
Com texturas
da velhice
Que assim
seja
6 de julho de 2012
7 de maio de 2012
4 de maio de 2012
Toada
Da infância
Para o mundo
Que não reconheço
Se vão as violas
Depois os terços
Sem passado
Não tem futuro
Nessa tristeza
De novo Jeca
Não mais giramundo
Chora viola
Implora
Para o mundo
Que não reconheço
Se vão as violas
Depois os terços
Sem passado
Não tem futuro
Nessa tristeza
De novo Jeca
Não mais giramundo
Chora viola
Implora
27 de abril de 2012
Mãos Gerais
Eu vim de lá
E lá veio pra cá
Num verso tolo
E um desenho bobo
Se faz Gerais
Por hora também
Pelas minhas mãos
É muito de mim
Pra não dizer quase tudo
De barro
Do som
Da madeira
Do falar absurdo
Se fez em mim
Pelas mãos, Gerais
E lá veio pra cá
Num verso tolo
E um desenho bobo
Se faz Gerais
Por hora também
Pelas minhas mãos
É muito de mim
Pra não dizer quase tudo
De barro
Do som
Da madeira
Do falar absurdo
Se fez em mim
Pelas mãos, Gerais
25 de abril de 2012
Abanheém
Nasci
branco
De alma
negra
E fala tupi
Ai de mim
dizer que não
Sou Mulato
Cafuso e
Mameluco
Sou Cabloco
Flecheiro
Consagrado à
Mãe de Deus
Nasci beato
De mãos pagãs
E fala
laica
Ai de mim não
crer
Sou de
umbanda
Espírita e cristão
Sou fluente
da Luz Universal
Devoto de Cosme
e Damião
24 de abril de 2012
Só ria
Hoje sorria
Sem teus
dentes
Demente
Com toda a
tua razão
Também
ausente
Sorria sem
teus dentes
Tua vontade
eloquente
Como toda
gente
Desgraça
pouca
De ser
vivente
19 de abril de 2012
Éramos nós
Éramos muitos
Cada qual com suas cores
Éramos milhares
Cada um com seu deus
Éramos fortes
Cada amundaba com sua palavra
Éramos diferentes
E mesmo assim iguais
Os herdeiros da floresta
Éramos, não somos mais
Os filhos do Brasil
Agora um indigesto civilizado
Cada qual com suas cores
Éramos milhares
Cada um com seu deus
Éramos fortes
Cada amundaba com sua palavra
Éramos diferentes
E mesmo assim iguais
Os herdeiros da floresta
Éramos, não somos mais
Os filhos do Brasil
Agora um indigesto civilizado
18 de abril de 2012
Tratado sobre (a minha) loucura
Ah, a loucura. Ácida doçura da certeza de que nada é além do seu próprio ser. Nada se cria, mas tudo pode ser criado. De jovens deuses ao velho diabo. O mal é contra-senso do bem, tal qual o fim a verdade do além. O que real é louco, a realidade será sempre o profano. Então, seguimos a verdade, ajoelhados como gado a espreita da salvação. Absolvidos pelo sacrifício da carne, esquecendo do sangue que deu vida a toda a sanidade.
9 de abril de 2012
3 de abril de 2012
Quadrinha
Saudade da Preta
Do fogo de seu candeeiro
Que me rogou feitiço
Para dançar só em seu terreiro
Salve Janaina
Menina Iemanjá
Um só soluço seu
Já me faz amar
Do fogo de seu candeeiro
Que me rogou feitiço
Para dançar só em seu terreiro
Salve Janaina
Menina Iemanjá
Um só soluço seu
Já me faz amar
Errata
Algumas manhãs reservo pra assumir meus erros. Não são poucas as que se estendem pelas tardes, afinal, são tantos erros antes de um acerto.
3 de Abril
Encanta ainda ser criança
Na tranquilidade colorida
Desse jardim no céu
Bolhas esquentam o ar
São sorvetes de doce mel
Química, física, apenas alegria
Inflam a esperança
Em meu tolo coração de papel
Onde nunca quis estar
Mesmo assim,
Volto a sonhar
Na tranquilidade colorida
Desse jardim no céu
Bolhas esquentam o ar
São sorvetes de doce mel
Química, física, apenas alegria
Inflam a esperança
Em meu tolo coração de papel
Onde nunca quis estar
Mesmo assim,
Volto a sonhar
13 de março de 2012
Relembranças
Costumo lembrar do que para outros é pouco importante. O cheiro brando do silêncio ou o gosto cítrico do reencontro. Lembro-me também da novidade estourando como bolhas de gás no céu da boca e da miséria prensando a dignidade tal qual um golpe forte na boca do estomago. Mas o que nunca deixo mesmo de lembrar é o aroma pálido da morte, chocando a todos, para provar que ainda estamos vivos. Quem não se lembra de nada disso, provavelmente, nunca entenderá porque o ruído de um bebê que soluça eternidade ao nascer é tão extasiante.
22 de fevereiro de 2012
Cinzas
Olha a quarta-feira
Tão cinza
Como segunda-feira
Que não termina
Veja o sorriso do palhaço
Tão sem graça
Como a última nota da marchinha
Que não rima
Olha, veja, lá se vai o carnaval
Tão cheio de saudade
Como o lágrima do Pierrot
Que não tem Colombina
Olha só
Veja bem
Só cinzas
Tão cinza
Como segunda-feira
Que não termina
Veja o sorriso do palhaço
Tão sem graça
Como a última nota da marchinha
Que não rima
Olha, veja, lá se vai o carnaval
Tão cheio de saudade
Como o lágrima do Pierrot
Que não tem Colombina
Olha só
Veja bem
Só cinzas
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